O inverno ainda não apareceu, apesar do avanço do mês de janeiro, mas o sol de verão nem estava tão quente naquela manhã de sábado na cidade da fé. O maior Santuário Franciscano das Américas fervilha como de costume. Mas não é só um dia de romaria como outros tantos. Em pouco tempo o Santuário vai ficando lotado e, além da fé e devoção a São Francisco, o rosto de cada um daqueles romeiros traz, junto com as marcas do tempo, do sol e da luta, um preito de gratidão ao velho sacerdote profeta que outrora percorria a pé as veredas tortuosas do sertão de Canindé, consolando, animando, evangelizando e conscientizando os sertanejos que vivam o sistema de sujeição nas grandes fazendas. Quis o destino, ou a divina providência, que a primeira celebração alusiva aos sessenta anos de caminhada presbiteral do padre Moacir Cordeiro Leite, o "Pai Abraão", fosse realizada ali, naquele Santuário Franciscano, palco de uma antiga batalha entre a piedade de um povo que, alcançando a graça da v...
Ainda estava escuro quando, pelas quatro e meia da madrugada do dia 20 de setembro de 1982, uma leva de camponeses entrava em Canindé. Não, não eram retirantes flagelados pela seca que castigava o sertão nos primeiros anos da década de 1980. Vinham a pé, em romaria, descendo a serra de Aratuba, para agradecer a São Francisco pela conquista da terra nas fazendas Monte Castelo, Boqueirão e Jardim, desapropriadas depois de muita luta e sofrimento no sertão. Caminhavam com o povo os padres Zé Maria (in memoriam), Alfredinho (in memoriam) e Moacir. Foto: Arquivo Padre Moacir Pelo caminho, enquanto os padres iam fazendo reflexões em lugares estratégicos, mais gente ia se juntando à caravana. Outros ofereciam o pouco que tinham para partilhar: “foi lindo porque na viagem a gente começou a encontrar gente com uma garrafa de café, um pacote de bolacha... quer dizer, uma multidão e o cara trazia uma coisinha. Mas de tanto ser espontâneo, não faltou” - lembrou o padre Moacir. Foto: Arq...
Pe. Moacir partilhando a produção do roçado. Foto: Pe.Evando Prestes a completar 84 anos, o velho missionário de coração sertanejo, mantém-se firme enfrentando os reveses da vida. Na casa simples, cedida no assentamento Jardim, no sertão de Aratuba, o padre Moacir Cordeiro Leite estabeleceu sua morada. Sem luxo, sem conforto urbano e, agora, sem metade do salário que recebe do Fundo de Sustentação dos Presbíteros, o homem que dedicou toda a vida á Igreja, não cansa e reinventar-se e, como dizia o Patativa, “de riso na boca, zomba do sofrer”.
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