Coragem de dar a vida: 60 anos de caminhada presbiteral do padre Moacir Cordeiro Leite


O inverno ainda não apareceu, apesar do avanço do mês de janeiro, mas o sol de verão nem estava tão quente naquela manhã de sábado na cidade da fé. O maior Santuário Franciscano das Américas fervilha como de costume. Mas não é só um dia de romaria como outros tantos. Em pouco tempo o Santuário vai ficando lotado e, além da fé e devoção a São Francisco, o rosto de cada um daqueles romeiros traz, junto com as marcas do tempo, do sol e da luta, um preito de gratidão ao velho sacerdote profeta que outrora percorria a pé as veredas tortuosas do sertão de Canindé, consolando, animando, evangelizando e conscientizando os sertanejos que vivam o sistema de sujeição nas grandes fazendas. 


Quis o destino, ou a divina providência, que a primeira celebração alusiva aos  sessenta anos de caminhada presbiteral do padre Moacir Cordeiro Leite, o "Pai Abraão", fosse realizada ali, naquele Santuário Franciscano, palco de uma antiga batalha entre a piedade de um povo que, alcançando a graça da vitória sobre o regime de sujeição nas fazendas, vinha em romaria, agradecer a São Francisco, e a mentira espalhada na cidade dizendo que os padres Moacir, Zé Maria e Alfredinho vinham tomar a Basílica e expulsar os frades. O propagador da perversa e falsa narrativa teve a oportunidade de, trinta anos depois, reconhecer o erro e pedir perdão, reconciliando-se publicamente com o padre Moacir.


Enquanto o povo se acomodava esperando a missa, um pequeno tumulto surge na lateral: é o profeta Moacir que, ajudado por uma bengala, vai lentamente avançando em direnção ao local da celebração. A caminhada é difícil, não pela condição física do idoso sacerdote, mas porque as pessoas o impedem se seguir, querendo cumprimentá-lo, fotografá-lo, tocá-lo, pedir a bênção, entregar alguma coisa etc. Ele atende a todos, abençoa a todos, fala com todos, identifica velhos conhecidos, posa para as fotos com todos. Não reclama, não murmura, não perde a paciência. Toda aquela gente apertando e querendo estar junto para tirar uma foto, não são fãs. São amigos, conhecidos de longa data, gente simples que um dia foi visitada, batizada, curada, casada, ajudada de alguma forma pela ação evangelizadora do padre Moacir.


Aos pouco ele avança e chega à sacristia onde veste a túnica simples - herança de um velho amigo padre já falecido (Pe. Bosco). A veste traz um pequeno remendo nas costas, sinal da frugalidade sincera de quem desposou  a Senhora Pobreza e sempre foi fiel a ela. A missa é presidida pelo bispo eleito, o monsennhor Antonio Carlos, concelebrada pelo Reitor do Santuário, Frei Gilmar e vários outros padres da Arquidiocese de Fortaleza e também da Diocese de Quixadá.


No fim da missa, uma reparação histórica: prefeito, vice-prefeito e uma vereadora entregam o título de Cidadão Canindeense àquele que, injustamente recebera o título de persona non grata. Depois da bênção final, outro tumulto, dessa vez no altar. A multidão quer cumprimentar e tirar foto, homenagear e é quase impossível contê-la. Calmamente Moacir atende a todos. Ao microfone anunciam que, no local do almoço comunitário, se poderá fazer todas as homenagens. Lá, no galpão preparado, a multidão vai chegando e ocupando as mesas. Água e refrigerante são servidos enquanto o almoço não chega.

Lentamente, cercado pela multidão, Moacir atravessa o salão, senta-se e acompanha pacientemente um sem número de homenagens. Discursos, poesias, música, histórias, abraços, beijos, fotos, presentes... Já passa do meio-dia e, em meio às homenagens, o almoço começa a ser servido. 

De mão em mão o microfone passa, testemunhando um carinho sincero por quem ofereceu a vida inteira pela vida do povo. A tarde avança. Moacir permanece firme, não come nada. Apenas toma um copo d'agua ou refrigerante que alguém lhe traz. Depois das homenagens, trazem o bolo e cantam os parabéns. Moacir faz seu discurso. Palavras simples e brandas sem a eloquência dos grandes, porém, sábias e fortes como a exortação dos profetas. E, consciente de uma vida vivida para servir em meio aos desafios e perigos de todos os tempos e lugares, recordando as ameças que sofreu, exclamou: "não me admiro se ainda for preso; não me admiro se ainda for morto". No final, com a voz embargada pela emoção cantou: 

Valeu a pena ter vivido o que vivi.
Valeu a pena ter sofrido o que sofri
Veleu a pena ter amado quem amei
Ter beijado quem bejei
Valeu a pena

Valeu a pena ter sonhado o que sonhei
Valeu a pena ter passado o que passei
Valeu a pena conhecer quem conheci
Ter sentido o que senti
Valeu a pena

Valeu a pena ter cantado o que cantei
Ter chorado o que cherei
Valeu a pena










Comentários

  1. Eterno Missionário; exemplo para nós simples agentes de pastorais.Que Deus lhe conceda saúde para continuar em nosso meio,nós motivando...

    ResponderExcluir
  2. Parabéns Pe Evandro seu artigo que relata com palavras tão importantes a Missão do Pe Moacir

    ResponderExcluir
  3. Obrigada Pe. Evando pelo relato. É o testemunho de um profeta que nos mostra que quando permitimos, "o Senhor faz em nós maravilhas". Quanta benção!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

"Pai Abraão"*: o nômade do deserto retorna a Canindé.

“Agora, eu voltei às fontes”: após corte de 50% do salário, padre Moacir, aos 83 anos, plantará horta para complementar renda